sábado, 23 de julho de 2011

PREVISÃO DO TEMPO - CRÔNICA 1.

(por Guilherme de Melo Sarmento Filho)


Estado do Rio de Janeiro, 23 de Julho de 2011, céu nublado com indícios de chuva, probabilidades de sol ao anoitecer, no fim do dia.


Em 1635, um ano após o pedido do governador Rodrigo de Miranda Henriques para que se pudesse utilizar dos recursos da Fazenda Real para obras necessárias de defesa na cidade do Rio de Janeiro colonial, o Conselho da Fazenda em Lisboa desculpava-se ao monarca reconhecendo a importância daquele pedaço do império no Atlântico Sul, mas que os cofres régios encontravam-se esgotados em conseqüência das despesas de combate aos holandeses em Pernambuco. O ônus da tarefa teria de pesar nos ombros dos moradores da cidade.

Durante todo o século XVII e XVIII, o importante instituto da Câmara Municipal - cujos quadros eram preenchidos não por reinóis, mas por colonos, principais da terra, “homens bons” como se dizia – era um dos principais elementos da sustentação de um império ultramarino que teve de usar de muita flexibilidade e concessão para fixar o seu domínio régio. Em alguns casos, como em Macau, por exemplo, seus oficiais foram vislumbrados como os verdadeiros detentores do imperium sobre a colônia pelo imperador chinês, sendo reconhecidos também pela metrópole como conseqüência. Aos moradores das cidades coloniais cabia a responsabilidade sobre o financiamento das obras importantes de defesa, assim como o reparo de fortalezas com o seu devido guarnecimento, pagamento dos soldados e tudo que dizia respeito direto à manutenção da boa ordem da cidade, afim de que o bom serviço à Sua Majestade revertesse na concretização dos seus interesses reais do cotidiano. Se pensarmos que até a primeira metade do século XVIII predominou um tipo de mentalidade medieval avançada, como a noção de vassalagem, por exemplo, essa relação de poder não é nenhum absurdo.

Todo esse poder relativizava o absolutismo e o monopólio régio de uma maneira que só as circunstâncias no cotidiano poderiam legitimar, fazendo os colonos - apesar de se sentirem como leais filhos do império português - terem a real consciência da pertença sobre o chão sob os seus pés, numa relação de apropriação do espaço que não visava a independência da metrópole, mas que sabia reclamar perigosamente quando via seus interesses cerceados e “exigir” de forma educada a divisão do poder com os funcionário régios.  Ao monarca interessava que assim fosse pela simples razão de poder fiscalizar melhor todos os seus vassalos, funcionários e colonos, desde que todos contribuíssem com sua parte aos cofres régios e o brasão português resplandecesse nos horizontes.

Há alguns meses atrás, em 2010 ou 2011, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho, entrou com uma liminar no Supremo Tribunal Federal, junto com outros governadores, para tentar barrar um aumento para os professores vislumbrado por lei do Congresso Nacional, alegando que o Estado não tem dinheiro para pagar. Eis aonde o meu discurso quer chegar com esta comparação histórica.

Como eu disse anteriormente, a mentalidade predominante até a primeira metade do século XVIII era medieval avançada. A contradição entre logos e mito gerava expressões de culpa e desorientação nas artes do barroco, a vassalagem era reconhecida como um dever, uma obrigação, o ritmo do dia a dia e das transformações era compassada ao sabor dos passos do boi nas rodas de moer açúcar e na suavidade e morosidade com que as velas dos navios singravam os mares durante meses, promovendo o vai-e-vem das mercadorias e das comunicações. Nos Estados mais católicos como foi o português, por exemplo, a demora na solução de problemas, que muitas vezes eram premeditados e somente solucionados depois que aconteciam, casava bem com um tipo naturalista e finalista de ser, que pedia grandes ganhos com o menor esforço possível e que deixava as respostas – que já eram dadas por Deus - ao sabor dos acontecimentos. Aos colonos pesar o ônus da sustentação de suas respectivas cidades nada mais justo e natural que assim fosse como dever de vassalos de Sua Majestade, e a aparente contradição entre cofre régio lesado e luxo da Corte perde a sua força quando o que predomina é ainda a noção das três ordens, onde a riqueza da nobreza é um direito divino.

Já o discurso do governador Sérgio Cabral e de toda a Democracia Liberal assume contornos sinistros porque é o utilitarismo a serviço da ausência do debate. A naturalização da mentira, sustentada pelas grandes mídias, como forma de impor o tecnicismo sobre o humanismo quando diz que os professores não podem ter salários dignos com o real valor do seu trabalho porque a economia do Estado pode “quebrar”, sendo o contrário quando o que está em jogo é salvar bancos ou construir para a especulação imobiliária, o que me faz pensar que das duas uma: ou o liberalismo acredita na mentalidade que regeu o absolutismo ou acredita na democracia que se diz protetora e em ambos os casos ela está sendo hipócrita, já que o tipo de Estado que defende teve sua gênese a partir da segunda metade do XVIII e pregava e ainda prega a igualdade, a fraternidade e a liberdade, percebendo na educação importante ferramenta de emancipação dos povos e que enxerga como dever do Estado suprir as lacunas sociais com os recursos dos impostos que é dever de todo cidadão.


Referência Bibliográfica:
BICALHO, Maria Fernanda. A Cidade e o Império: o Rio de Janeiro no século XVIII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A AFRICA MEDIEVAL - O IMPÉRIO DA ETIOPIA por Marcos Arêas Coimbra.


A Etiópia durante o período que usualmente chamamos de Idade Média, fazia parte de um vasto império cujo nome, apesar de algumas variações no tempo, foi na sua maior parte o de "Império Axum".

A região em que se situava este Império abarcava o que hoje conhecemos como a área nordeste do atual continente africano, mais particularmente a Eritréia e a Etiópia.

Partes mais interiorizadas, sobretudo no sul do Egito também fizeram parte do Império axumita durante seus períodos de maior prosperidade.

A economia girava em torno do comércio de produtos que vinham das regiões mais remotas da Ásia, como a Índia, e que eram vendidos frequentemente no mar mediterrâneo ou vermelho para mercadores, cujo destino na maior parte das vezes era o ocidente.

Na realidade este comércio foi fruto de grandes disputas entre diversas nações e quem o controlava geralmente se tornava poderoso o suficiente para "dar as cartas" nas relações de poder.

Inicialmente os axumitas disputaram com os persas sassânidas, cujo interesse maior era a interrupção do comércio pelo mar vermelho para obrigar os mercadores a passar pela área iraniana a qual controlavam.

Havia também o Império Bizantino, que ainda mantinha uma influência e controle bastante razoável de portos e cidades importantes na região que ligava o ocidente ao oriente.

Por fim irá somar-se a este processo de luta pela hegemonia o Islã, que irá crescer em poder e riqueza até torna-se a força dominante em boa parte do mundo civilizado.

A estrutura política de Axum é algo que, para quem desconhece a existência do Império, traz a tona uma grande surpresa, posto ser organizado em núcleos de poder, com um soberano principal, o Rei, o negashi, assemelhando-se muito às monarquias ocidentais.

Grandes palácios eram sedes de cortes cujo luxo em nada devia para o mundo ocidental, muito pelo contrário, em certos momentos nos arriscamos dizer que eram até mais dinâmicas e magníficas.

Havia um sistema de hierarquização social muito parecido com a vassalagem feudal, onde uma estratificação rígida separava diferentes ordens, com ênfase para institutos como a escravidão, a servidão, exércitos profissionais e sacerdotes bem próximos da figura régia.

Deste modo os institutos sociais alternavam-se conforme a orientação se inclinava para uma centralização monárquica ou para uma descentralização nos momentos de crise.

Várias foram as disputas entre diferentes linhagens pelo poder régio e o problema da sucessão dinástica era catalisador de grandes guerras.

A religião era a cristã.

Um cristianismo ligado ao patriarcado copta egípcio, cujo centro da sacralidade residia nas mãos de um bispo, o abuná, com atribuições semelhantes a dos bispos da igreja do ocidente.

Este era escolhido pelo imperador cristão copta do Egito e mantinha assim um processo de intensa catequese, sobretudo nas incursões ao sul, geralmente feitas com o intuito de ocupar territórios, aumentando as áreas de cultivo e os braços para a luta e serviço nos palácios reais.

É notória hoje a grandeza e o esplendor das igrejas esculpidas diretamente na pedra crua, e salientemos, de cima para baixo, ou seja, no chão.

A que mais se destacou, entre as onze de que se têm notícia, foi a igreja de São José, onde até hoje acredita-se, segundo a lenda local, estar guardada a "arca da aliança".

AS REVOLUÇÕES E O SURGIMENTO DA ARTE MODERNA. Episódio1 - A locomotiva e a modernidade por Marcos Arêas Coimbra.




O século XVIII é conhecido como -  antes de mais nada -  aquele em que as estruturas do chamado Antigo Regime, modo como a sociedade ocidental européia havia se organizado desde os fins da Idade Média, desmoronou, ou ao menos, iniciou o seu processo de decadência para se extinguir quase que completamente no século XX.

Com as inúmeras revoluções, que ocorriam em todas as áreas da existência humana, política, economia, ciência, transformaram-se abruptamente, fazendo com que os homens deste tempo sofressem um poderoso choque, tanto no que diz respeito à euforia como , passada esta, uma certa melancolia.

O movimento filosófico-estético conhecido como Romantismo é fruto destas mudanças sentidas intensamente pelos povos e indivíduos que as viviam e experimentavam. O Romantismo será analisado posteriormente.

O objetivo aqui é propor uma possibilidade de análise, em que a chamada arte moderna pode ser entendida como fruto destas transformações, onde a sensibilidade dos contemporâneos aos eventos, atingida fortemente pelos acontecimentos, irá responder com manifestações culturais inauditas, ou seja, inéditas.

Utilizaremos a invenção da locomotiva como um exemplo bastante claro deste fenômeno. Imaginemos um homem do século XIX que nunca se locomoveu mais rápido do que a velocidade de um cavalo. Imagine este homem dentro de uma locomotiva pela primeira vez, observando a paisagem em uma velocidade nunca antes experimentado pelos seus olhos e até pela civilização mundial

Bom este homem é um pintor e como tal está com seus canais perceptivos sempre ligados. Ele começa a ver os objetos de um modo totalmente diferente, pois a velocidade do trem faz com que a imagem da realidade fique destorcida. É como vemos o mundo como quando estamos em carro no mundo de hoje, ou algo parecido.

Pois bem!!! Este pintor, que provavelmente foi um dos primeiros pintores modernos, não via mais a realidade como antes, e assim sua pintura não podia representar o mundo como faziam os pintores de antigamente. Para ser verdadeiro com os seus sentimentos algo deveria mudar. E mudou.

Foi assim que os pintores começaram a projetar em sua arte não mais uma pretensa tentativa de copiar a realidade, tal qual uma fotografia, mas buscavam definir quel impressão eles passaram a ter do mundo. Daí o surgimento dos primeiros revolucionários como Delacroix, Courbet, Manet, Cezzane, Monet etc, que acabaram sendo conhecidos como românticos, realistas e impressionistas.

Todo o impacto que o ocidente sofreu com a Revolução Industrial, com o vertiginoso crescimento das cidades e o aparecimento das máquinas no cotidiano dos cidadãos, gerou nos homens de sua época a necessidade de repensar, mesmo que de modo muitas vezes inconsciente, sua própria existência e seus modos de defini-la.

O exemplo da locomotiva é somente um convite para pensarmos os objetos e as idéias de nosso próprio tempo não como surgidos do nada, mas como produtos de todo um processo que nos envolve e em que estamos envolvidos.

terça-feira, 19 de julho de 2011

A ARQUITETURA GÓTICA COMO SÍMBOLO DAS TRANSFORMAÇÕES DO OCIDENTE ( SÉCULOS XII-XV) por Marcos Arêas Coimbra.


As grandes mudanças verificadas na arquitetura a partir de meados do século XII, e que irão efetivamente se consolidar a partir do século XIII, podem ser lidas como um valioso instrumento no esforço de se entender as grandes transformações por que passava o mundo ocidental.

A passagem da arquitetura românica para a gótica ajuda-nos muito na formação do quadro mental destas transformações.

A estrutura de uma igreja românica era de uma solidez, com seu muros de pedra dominando quase toda a construção, que na realidade pareciam querer passar a mensagem, para o observador de que ali se encontrava, de uma fortaleza, ou seja, um espaço que visava proteger o que havia dentro.

No mundo interno de uma construção como essa estava, na mentalidade da época, a cidadela divina, que deveria a todo custo ser protegida do mundo exterior. Ali morava o sagrado, a Jerusalém celeste alheia à corrupção do mundo terreno.

Era um período onde a sacralidade era vivenciada como uma benção de poucos escolhidos, que rezariam para a salvação de todos os outros homens condenados ao pecado, isto estava de acordo com o imaginário coletivo. Assim era a mentalidade do período.

Dentro de um mosteiro românico o caráter soturno, de pouca luz, denotando a profunda sobriedade do lugar, era de algum modo condicionado por uma arquitetura ainda muito rudimentar, calcada em seus princípios pelas antigas construções civis do período imperial romano. Foram elas na verdade reapropriadas para a ideologia dominante do Cristianismo.

Com as intensas inovações que pululavam na entrada da Baixa Idade Média, surgiam novas construções, as catedrais, geralmente ocupando o espaço central das cidades, ou seja, já ambientadas em um outro meio, e por isso respondendo à um outro imaginário.

Com o desenvolvimento de novas técnicas, as naves e abóbodas cada vez mais leves, permitiram que surgissem nas paredes laterais os vitrais, enchendo de luz os espaço interno.

O interessante aqui é notar que um espaço pleno de luz e de cores determina, ou é determinado, por uma mudança simbólica de mentalidade. O espaço urbano, com sua aceitação cada vez maior do que é humano e terrestre, tem em seu seio enormes catedrais que passam duas mensagens, relatam dois dos princípios mais importantes na análise do que se transforma no mundo do ocidente:

1 - A grande altura que se quer alcançar, com catedrais cada vez mais altas até o desabamento do coro da catedral de Bourges - ou seja, a necessidade de se ampliar a manipulação ideológica da sacralidade pelas instituições que a detinham como monopólio seu;

2 - A mudança de mentalidade do Homem ocidental no modo de dar valor ao que é terreno. A sacralidade da luz permite o vislumbre de um contato maior com o sagrado, uma visão mais otimista do papel do humano, que no futuro chegará em sua última instância, no antropomorfismo.

IGREJA, SACRALIDADE E RELAÇÕES DE PODER: O CARÁTER PEDAGÓGICO DA SANTIDADE NA BAIXA IDADE MÉDIA por Marcos Arêas Coimbra.

A historiografia recente vem pesquisando com afinco as relações do denominado " âmbito do simbólico" e os chamados fundamentos ideológicos do poder - o modo como instituições sociais participantes do complexo jogo de poder se utilizam de elementos do imaginário para consolidar e legitimar pretensões e anseios.

No bojo de toda sociedade é notório, atualmente sobretudo, que ao lado das já consagradas estruturas jurídicas, econômicas, militares, religiosas, há também um amplo campo simbólico de construções sociais tidas como formadoras de uma específica mentalidade.

No período chamado formalmente de Idade Média, este espaço do imaginário era profundamente marcado pelo que se convencionou chamar de intensa sacralidade. Assim, com o advento, fortalecimento e consolidação do Cristianismo, o período da Idade Média registrou uma atenção - na construção das bases estruturais da sociedade - particular a tudo que diz respeito ao aspecto religioso e toda a sua carga de simbolismo.

Deste modo, no mundo dos fatos, ao lado dos poderes laicos verificamos a Igreja como protagonista marcante de todo o contexto histórico, que irá, muitas vezes, paralelamente aos reis e grandes senhores, interpretar um papel fundamental na criação e organização das regras morais e da hierarquia de valores predominantes.

Relatar o desenvolvimento da sacralidade e sua intensificação periódica durante os séculos aqui envolvidos é tarefa de uma vida inteira. O que se quer realmente aqui propor é como a Igreja, através da figura do "Santo ", criará narrativas conhecidas como hagiografias - histórias que contam a vida e os milagres realizados por santos, com forte conteúdo moralizante - ou mesmo histórias contadas em sermões (e toda gama de expressões orais equivalentes), visando substancialmente tornar esta sacralidade cada vez mais enraizada no imaginário social e assim, enquanto instituição social inserida nos jogos de poder, fortalecer-se para, senão ampliar, ao menos manter seu papel como formadora de uma opinião pública.
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O homem do medievo vivia em uma geografia diversa da que estamos acostumados. E quando dizemos que "vivia" estamos afirmando que todo o seu sistema de crenças, valores e formas de existir eram elaborados dentro desta diversa perspectiva.

O caráter mais marcante do modus vivendi do medievo era a sua bipolaridade, ou seja, o cosmos era ao mesmo tempo dois. Céu e terra, natural e sobrenatural, físico e espiritual. Todas as relações humanas eram lidas levando em conta esta geografia, e as interpretações do mundo necessariamente estavam inseridas neste contexto. Cabe ressaltar que nesta dualidade havia uma hierarquização, qual seja, o Céu, morada de Deus, estava no alto e lá residia o destino dos bem aventurados, que, de passagem pela terra, fariam jus a vida eterna ao lado de Deus.

Assim a Igreja, desde seus primórdios, pelo próprio processo de sua criação , o que não cabe aqui também discutir, tomou para si, com pretensa exclusividade, o papel de principal mediadora entre estes dois mundos. Fundada pelo filho primogênito de Deus, o Messias, Jesus Cristo, estava destinada pela Lei divina a trazer ao Homem a possibilidade de salvação.

Com o tempo, e com a expansão do Cristianismo, este papel de mediação foi tomando importância tamanha, criando um fenômeno de proporção bastante significativa na vida do Ocidente Cristão.
E a figura do santo surge neste cenário encaixando-se perfeitamente no painel apresentado. Ora o santo e a santidade, e também lugares e objetos santos, eram mediadores privilegiados capazes de relacionar-se com o sobrenatural de um modo único, trazendo todo tipo de benefícios àqueles que fizessem por merecer sua intercessão.

Destarte a vida de um santo era uma narrativa modelar de como agir para conseguir a tão almejada salvação. Se o Homem era um peregrino neste mundo em busca do direito de subir aos céus, seguir um santo, ter os seus favores, estar até mesmo na posse de um pequeno pedaço de osso seu era um início de garantia de tempos melhores.

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Não podemos olvidar que a Média foi um período de crise, de escassez. Longe de estarmos repetindo a antiga e deformada visão da " era das trevas", seria hipocrisia e erro proposital esquecer que, em função da desorganização política e das incipientes técnicas de produção, o acúmulo de excedentes era mínimo e muitas vezes a produção de alimentos era insuficiente para dar conta da população, ocasionado fomes, pragas etc.

Isto por outro lado tornava as pessoas suscetíveis a argumentos que trouxessem consigo uma mensagem de esperança, e - criando um imaginário suficientemente forte neste sentido - dando margem ao fortalecimento de tudo que dissesse respeito ao único meio viável de salvação, ou seja, a sacralidade ( já que o mundo material parecia provar o contrário).

As manifestações religiosas não foram uniformes. Apesar do papel altamente centralizador da igreja, muitos foram os expedientes utilizados no anseio de uma vida melhor. O Evangelho, que antes de mais nada é uma verdadeira biografia de Cristo, o rei dos reis, era o documento, o guia, principal e viver a sua semelhança era uma tarefa árdua mas recompensadora.

Muitos foram os que buscaram viver esta difícil missão. Muitos buscaram refúgio nas florestas, nos desertos, nas montanhas, em lugares que a posteriori se tornariam "santos", exatamente por terem sido escolhidos para receber aqueles homem capazes de um contato com o divino,o sobrenatural.

Para o propósito deste pequeno texto prendamo-nos na questão seguinte: De que modo a agiu a Igreja diante de tais fenômenos? Aqui chegamos ao ponto central da argumentação.

O status de santo, ou seja, a determinação de algo como pleno de santidade ou não , foi imediatamente apropriado pela Igreja, e deste fenômeno muito dependerá seus movimentos durante séculos. Se em um primeiro momento o objetivo principal era trazer todo esse movimento para dentro da instituição, como podemos ver exemplarmente no caso de Francisco de Assis, em um segundo momento as ações foram no sentido de utilizar este rico manancial de fundamentos ideológicos ao seu favor.

Através de uma vasta construção de narrativas da vida de santos, de consagração de lugares como santos, a igreja legitimava e, sobretudo, organizava e consolidava, os valores determinantes na construção da mentalidade e do imaginário do Ocidente.

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Com o intuito de abordar um pouco mais detidamente a questão da narrativa literária como "documento social" hábil ao historiador, em sua tarefa de compreender os fundamentos ideológico-pedagógicos do poder de uma certa sociedade, faz-se inadiável transcrever aqui um pequeno trecho do versículo intitulado " Santidade" no "Dicionário de Temático do Ocidente Medieval"(SP, Edusc, 2006, pág 449) de Sofia Gajano : " A santidade no Ocidente medieval constitui um fenômeno considerável, de múltiplas dimensões: fenômeno teológico, ela é a expressão da busca do divino; fenômeno teológico, ela é a manifestação de Deus no mundo; fenômeno religioso, ela é um momento privilegiado da relação com o sobrenatural; fenômeno social, ela é um fator de coesão e de identificação dos grupos e da comunidades; fenômeno institucional, ele está no fundamento das estruturas eclesiásticas e monásticas; fenômeno político, enfim, ela é um ponto de interferência ou de coincidência da religião e do poder. Pode-se consequentemente considerar a santidade o lugar de uma mediação bem sucedida entre o natural e o sobrenatural, o material e o espiritual, o mal e o bem, a morte e a vida.".
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Para ilustrar com maior detalhe e tornar mais clara a argumentação aqui presente, propomos a apresentação de um estudo de caso. Trata-se da vida e santidade de São Francisco de Assis, modelo exemplar de apropriação e construção por parte do clero da vida de um santo e da transformação do mesmo em algo maior, am algo com ares institucionais.

Francisco nasceu em Assis, cidade da atual Itália, nos fins do séc. XII, filho de um comerciante bem sucedido com uma nobre de média importância. Viveu uma vida leiga, como um jovem normal, condizente com a sua condição financeira e social.

No meio termo entre a vida adulta e a juventude, Francisco irá vivenciar acontecimentos que o farão mudar de postura e consequentemente de filosofia de vida. Francisco inicia a se questionar sobre s injustiças do mundo quando ao mesmo tempo consegue uma pequena cópia de trechos do Novo Testamento. A leitura da vida e ensinamentos de Cristo, o que era até então monopólio da Igreja, faz com que aquele homem mude radicalmente de vida, abandonando a herança e negócios de sua família e iniciando uma verdadeira vida mendicante. Entendendo que somente se despojando de todos os seus bens materiais ( como a parábola do jovem rico dos evangelhos) para levar a palavra e viver exclusivamente visando a ajuda aos pobres, doentes e marginalizados, Francisco inaugura, ou senão ao menos, radicaliza um movimento novo dentro das práticas religiosas habituais.

Outros movimentos anteriores já haviam praticado uma filosofia semelhante e eram muito parecidos em seus pressupostos com o que propunha Francisco. A grande questão da permanência de Francisco e onde reside toda a sua grande carga simbólica é que ele não irá agir à revelia do clero. Buscará a todo tempo a aprovação e institucionalização de sua ordem junto ao papa, apesar de querer manter os princípios básicos de despojamento dos bens mundanos intactos.

Inicialmente suas atitudes chocaram uma sociedade que colhia os frutos da revitalização do comércio, das cidades, dos excedentes cada vez maiores permitindo uma inicial cultura do luxo fora dos castelos, fazendo com que o olhar desferidos para as atitudes do santo fossem de reprovação ou incompreensão.

Contudo as intenções de Francisco eram tão verdadeiras e seus atos tão concretos, frente a uma sacralidade marcada profundamente pela abstração, que muitos passaram a ver nele algo que buscavam para si, uma vida diferente, fora das intermináveis guerras, discriminações e muito mais perto, em comparação com qualquer exemplo de vida religiosa anterior, daquilo que estava inserido no Novo Testamento.

Francisco era a salvação encarnada, para o peregrino que não compreendia aquele mundo em transformação aquele homem que dormia tranquilamente ao lado de um leproso era uma chance inigualável de redenção. Lembremos, ressalte-se, que o luxo e os excessos da Igreja já estavam sendo contestados com certa veemência por diversos movimentos, denominados por certa autora como verdadeiras tentativas de Reforma.

Mas ele respeitava os sacramentos, acreditava piamente no princípio da obediência. Logo a Igreja viu neste homem uma excelente oportunidade de voltar a se aproximar do pobres, cada vez mais abundantes e distanciados daquele clero de grandes abadias e posses.

Aqui repousa o núcleo de nossa argumentação. Francisco foi absorvido pelo clero, sua ordem institucionalizada e depois de sua morte, à revelia de sua vontade e testamento, a Igreja mandou que Tomás de Celano e São Boaventura, dois homens da universidade, escrevessem uma biografia de Francisco, moldando a sua conduta, e mais, construindo assim um personagem que retratasse o tipo de comportamento santo, o tipo de conduta capaz de conduzir a sociedade para o conjunto de valores almejado por aqueles que detém e esperam manter o poder.

Este tipo de atitude, de iniciativa é exatamente o que determinamos como construção simbólica de uma figura histórica de modo que a mesma se encaixe ou personifique uma proposta que no fundo, não passa de um fundamento ideológico do poder, pois consolida e legitima aquele que o detém.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

PODER RÉGIO, PAIXÃO E EREMITISMO NA OBRA DE JUAN DE ENCINA. por Marcos Arêas Coimbra


Juan de Encina foi um dramaturgo do séulo XVI que escreveu parte de sua obra sob o mecenato do Duque de Alba, vassalo dos conhecidos " Reis Católicos ", Fernando de Aragão e Isabel de Castela.
A obra deste autor aqui analisada foi escrita no período cronológico acima mencionado e trata da Paixão de Jesus Cristo. Na realidade o seu texto encena a caminhada de dois eremitas rumo ao Santo Sepulcro, onde se encontram, milagrosamente, com Verônica, mulher responsável por entregar a Jesus Cristo o pano com o qual teria enxugado seu suor e sangue e deste modo criado o Santo Sudário.

Deste encontro podemos extrair um discurso onde Verônica enfatiza aos eremitas, um mais velho, outro mais moço, mestre e discípulo, a importância do sacrifício do Messias para a salvação de toda a Humanidade.

Pois bem, ao lado deste elementos contextuais da obra, podemos ressaltar questões mais profundas, de cunho ideológico, construídas pelo autor propositalmente, com o objetivo de exaltar em sua obra a imagem que se propunha consolidar do poder régio em questão.

Como o próprio adjetivo de tais reis nos permite, sem qualquer dúvida, afirmar, a imagem régia escolhida para conotar a legitimidade (a soberania) da presente realeza era a do chamado "Rei - Cristão". Ou se quisermos " Rei-Cristo" - " Cristo-Rei".

Vejamos passo a passo o que se quer aqui conceber:

1 - Porque eremitas? Tendo em vista que este texto teatral cumpria uma função de propaganda da imagem régia, imagem específica como afirmamos acima, o eremita traz consigo toda uma gama de especificidades que neste tempo era de extrema valia aos propósitos do autor.

O movimento do eremitismo é muito mais antigo do que o século XVI, remontando mesmo aos primeiros movimentos do cristianismo. Mas com o resgate desta figura nos séculos XI-XIII, o imaginário medieval imbuído de sua notória sacralidade profunda, enxergava neste - ao realizar a sua fuga mundi - um ser de extrema entrega aos preceitos da vida evangélica, repassando os passos de Cristo, Deus feito homem, e com isso sofrendo as suas provações.

Colocar-se diante desta enorme responsabilidade era sinal de purificação da alma de um Homem que viera a este mundo exatamente como peregrino na busca de sua salvação.

Não convém, nem é este o objetivo aqui, esmiuçar o movimento do eremitismo no bojo da Renovação das Sensibilidades (sécs XI-XII), mas somente demonstrar que a utilização por Encina destas figuras, está repleta de uma intencionalidade, de uma consciência de que tal personagem pode fazê-lo mais efetivamente alcançar seu objetivo, qual seja, realizar uma propaganda da santidade dos que o patrocinam e cativar a opinião pública disto.

Você pode estar se perguntando pela razão da utilização aqui de termos tão "modernos" como opinião pública e propaganda política. Isto se deve à apropriação que fazemos das mais recentes construções historiográficas, sobretudo, da obra de José Manuel Nieto-Soria.

Destarte, ao utilizar eremitas como protagonistas de sua peça, Encina está se apropriando de uma figura do imaginário medieval privilegiada no intuito de se referir à busca por uma vida santa, ou ao menos, mais pura.
Assim podemos do mesmo modo lembrar, mais uma vez, a força da sacralidade na constituição da moral coletiva do medievo.

2- Porque a Paixão de Cristo como tema de sua peça? Ora, se ao autor incumbe realizar ato de dramaturgia que leve o público constatar, mesmo que indiretamente, a inclinação e aceitação de seus mecenas ao caráter fundamental de uma vida Santa, nada mais conveniente do que se utilizar do momento mais profundamente marcado pela entrega de um ser ao Bem Comum, ou seja, o sacrifício extremo de Deus para salvar a humanidade de sua perdição, o Pecado Original.

Era sem dúvida alguma importante fazer demonstrar que o apoio ao espetáculo - por parte, tanto do Duque de Alba, como por analogia daquele que era o seu senhor, ou seja, os monarcas espanhóis - à uma peça com este conteúdo, somente seria realizado por um poder que estima e respeita tal conjunto de valores.

Logo, o apoio expresso á encenação da paixão faz com que o "dono" do espetáculo absorva os méritos de ser um homem público preocupado em trazer a santidade aos seu súditos.

Assim não fica muito difícil chegarmos à conclusão de que esta atitude estava em plena consonância com a política de consolidação da imagem de uma monarquia beneficiada pelos favores de Deus, e, deste modo, ali empossada com a sua aprovação, senão, imposição.

3 - Poder régio e Teatro. Qual a correlação? De algum modo esta pergunta já está respondida nos trechos acima, mas, tendo em vista a relevância do tema, não é demais continuarmos tecendo comentários sobre tal problemática.

Quando uma monarquia detinha o poder, diferente do que se convencionou pensar, era obrigada a construir toda uma rede de elementos de propaganda política e de relações de poder com seus súditos, capaz de legitimar e consolidar este poder frente ao conjunto de valores aceitos no período em questão.

A moderna historiografia continua velando profunda atenção aos instrumentos político- institucionais, como o jurídico, o religioso, o social, o militar, o legislativo, etc, mas junto a estes um outro determinante foi alçado ao mesmo patamar na construção do projeto de poder, qual seja, o âmbito do simbólico.

O que seria o simbólico?

Para responder tal indagação já podemos adiantar algo fundamental: a aceitação veemente dos fenômenos literário-símbolicos como "documentos sociais" aptos a permitir o historiador reconstruir objetos constituintes das relações de poder.

O teatro, portanto, é visto como tão indispensável quanto uma campanha militar na manutenção do poder por aquele que o detém. Aqui entramos na seara das imagens régias.

Era parte constituinte do programa político de todo monarca a construção de uma específica imagem, ou seja, da utilização do acima mencionado simbólico.

Assim veremos reis sábios, guerreiros, messias, e até mesmo inúteis. No caso em que nos detemos, a imagem era, como já dito acima, a do "Rei-Cristão", mais especificamente, o "Rei-Católico".

Isto quer dizer que toda manifestação régia enquanto propaganda política era "fabricada" com vistas a reforçar esta imagem. Mesmo quando a peça teatral era apresentada longe da corte real, o simples fato de ser realizada no território controlado por esta monarquia em particular, fazia "respingar" proveitos e bonanças políticas, trazendo os súditos, em seu imaginário coletivo, para mais perto da crença em um poder régio pleno de conteúdos ideológicos teológico-moralizantes.

E quando dizemos teológico-moralizantes, não o fazemos à toa, posto que, ainda era muito forte a importância da crença nos fundamentos sagrados do poder, mesmo no séc. XVI.

Fazer acreditar que o seu poder era emanado, senão, delegado por Deus, era tão importante ao monarca quanto vencer batalhas. Na realidade as duas coisas estavam interligadas, pois a vitória só afirmava o posicionamento do Rei enquanto detentor dos favores de Deus, este sim, o verdadeiro soberano.

Naturalmente que a discussão dos fundamentos ideológicos do poder de cunho teológico por si só é questão para longo debate, o que não é o intuito aqui. Desejamos somente demonstrar que a construção, por Juan de Encina, de uma peça teatral trazendo em seu bojo figuras como eremitas, anjos, etc, e cujo tema era a Paixão de Cristo, está profundamente inserida na lógica apresentada acima.

Não o fazia o dramaturgo somente por convicção pessoal, crença ou licença poética, mas com alguma intencionalidade voltada a agradar aqueles dois pólos da equação: os detentores do poder - o público almejado.

Há sempre uma circularidade nesta equação. Diverso de uma história escrita calcada nos grandes feitos e grandes homens, a sensibilidade do historiador atual deve voltar-se na compreensão de que esta circularidade está inserida em um conjunto de micro-poderes responsáveis pela conformação do que é legítimo ou não.

Conclusão:

Frente ao exposto parece-nos bastante razoável empreender uma leitura do teatro de Juan de Encina como parte integrante de um projeto cujo objetivo:

1 - estava inserido na conformação de uma propaganda política e na construção de uma específica imagem régia, visando sobretudo legitimar-se;

2 - consolidar o poder dos monarcas frente à opinião pública.

BATALHAS NO CAMPO DA MEMÓRIA: A CRÔNICA DE FERNÃO LOPES NO REINADO DE D.DUARTE ( CRÔNICA DE D.JOÃO I) por Marcos Arêas Coimbra.

No fim do séc. XV o reino de Portugal viveu momento decisivo em sua história. Havia muito que disputas eram travadas entre este reino e o seu vizinho, Castela, o qual insistia em considerar Portugal território vassalo seu.

Com a morte de D. Fernando, Rei de Portugal, o governo ficou a cargo de uma regência, tendo como regente D. Leonor, viúva do rei morto que pertencia a linhagem real de Castela. Este fato gerou situação catalisadora de uma tensão pré-existente. A sociedade portuguesa encontrava-se dividida. Parte da nobreza de Portugal era fiel a Castela. Sobretudo a chamada alta nobreza. Outra parte, constituída de uma nobreza "menor" e de uma nascente burguesia ( setores urbanos) queria a independência completa e a instituição de um governo central que se preocupasse em garantir os interesses exclusivos de Portugal.

Podemos, já de pronto, enxergar que o pano de fundo deste conflito era a formação, ainda que rudimentar, de um Estado Português nos moldes do que hoje chamamos de Nação.

Com a crise instaurada, os contrários a D. Leonor uniram-se em torno da figura do Mestre de Avis, futuro D. João I, filho bastardo do rei morto, e requereram a sua entronização como o legítimo herdeiro. O cenário estava pronto para um embate entre as duas forças, os defensores da permanência da regência e os partidários de D. João I. Este confronto se convencionou chamar de Revolução de Avis. Questões concernentes à problemática envolvendo o termo "revolução " não serão tratadas aqui.

D João I vence o conflito e inicia um projeto de centralização do poder, de constituição de um Estado via burocratização dos serviço públicos, da designação de um poder militar próprio e de afastamento definitivo de Castela. Portugal agora era mais do que nunca uma entidade nacional independente, buscando seus interesses e sua consolidação.




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Com a morte de D. João I, sucede-lhe D.Duarte, seu filho. Este rei será responsável pela nomeação de Fernão Lopes, já a esta época ocupante do cargo de protetor da Torre do Tombo, como cronista mor, ou seja, como incumbido de escrever a história do reino português, sobretudo, da ascensão da Dinastia de Avis.

Aqui aflora a nossa problemática. Quando um rei busca escrever uma memória da chegada ao poder de sua linhagem dinástica, está fazendo-o com diversos objetivos. Estes objetivos são naturalmente a busca de legitimidade e consolidação de seu poder.

Como sabemos há, mesmo para a baixa idade média, uma preocupação por parte dos detentores do poder régio de unir a opinião pública, seus súditos, em prol dos objetivos traçados pela monarquia, fazendo com que tais referenciais, - via propaganda oficial - se tornem fundamentais a todo o Reino.

Demonstrar através de meios simbólicos - ou que criam um imaginário condizente - que os planos traçados pelo rei são para o bem de todos é estratégia "obrigatória" na tarefa de fortalecer e garantir uma posição de poder.

D Duarte, ao nomear Fernão Lopes, está fazendo isto. Conclui muito inteligentemente que a monarquia avisina não podia descuidar-se da tarefa de demonstrar, interna e externamente, a licitude de seu papel. Legitimidade não é atingida somente pelo viés dos chamados "fatores concretos do poder", como uma certa historiografia quer, mas principalmente através da construção de fundamentos ideológicos que tem no simbólico sua marca maior.

Há sempre circulariedade. O imaginário é produzido na medida que se utiliza de elementos da mentalidade coletiva para consolidar-se.

Fernão Lopes dedicará um de seus prólogos ao debate historiográfico. Afirmará que o que faz é " narrar a verdade dos fatos" e fugir de todo " fingido louvor". O cronista quer com isso mostrar a novidade de seu labor, e assim garantir legitimidade para o que ele próprio escreve. É uma outra camada da problemática da legitimidade. Aqui estamos situados no espaço da forma.

Ora se um texto se propõe, mesmo que não abertamente, ser instrumento de legitimação, ele próprio tem que garantir para si uma credibilidade. Além de aspectos da novidade proposta por Fernão Lopes, pois já podemos ver rudimentos claros de um Humanismo transfigurado na busca pela verdade, a colocação da narrativa em um campo epistemológico contrário ao falso era de extrema importância para o sucesso de seu projeto.

Contudo, como ensina o célebre pensador, Memória não se confunde com História. A carga de intencionalidade na construção da memória transpõe o status de simples texto literário para o categoria de instrumento de poder.

Este é o coração da problemática. A construção de memória esta inserida em um "projeto político", e, destarte, os instrumentos teóricos que pensam a "ficção" devem agregar-se ao que se propõe como "ciência".

Como quis o autor de " O Nascimento da Tragédia", para fugirmos das falácias do Positivo, devemos compreender tudo como demasiado humano.

No caso de Fernão Lopes devemos ter em mente a questão da "proximidade". O autor escreve inserido em uma instituição medieval chamada scriptoria , espaço inserido no bojo do palácio real, orientado para a produção de conhecimento. Este conhecimento é instrumento utilizado pelos monarcas em suas atuações políticas. Como quer Le Goff, apesar de não devermos regredir para a historiografia dos "grandes homens e fatos", há ainda no político uma ossatura histórica que determina, e muito, construções simbólicas, e que tem em sua estrutura funcionalidade intensa na prática do fazer histórico.

O poder régio, neste séc. XV de enormes acontecimentos, irá cada vez mais necessitar de justificativas aglutinadoras das forças sociais. Argumentações que anteriormente eram suficientes de pronto, agora devem passar pelo crivo de um espaço discursivo magistralmente estudado e nomeado, pela celebrada medievalista Vânia Fróes, como " Discurso do Paço".

Como quer Habermas, todo poder, para conseguir apoio dos que a ele se submetem, deve em algum momento responder às demandas da argumentação. Perelman, podendo ir mais longe, já que se posicionou sempre como pensador livre, não teme afirmar a base retórica profunda de toda assertiva, mesmo as mais "científicas".

Assim, voltando ao nosso cronista, Fernão Lopes se via em uma posição com espaços de manobra não muito largos, já que esta história deveria ser uma memória, e assim, orientada pelo monarca. Apesar do esforço de Lopes em afirmar diversas vezes a sua imparcialidade, esta mesma era um objetivo impossível de ser alcançado. A não ser é claro que, como Prometeu, aceitasse um destino pouco agradável.



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Detenhamos-nos agora na situação contextual. Lopes deveria escrever um texto que necessitava responder a uma, no dizer de Foucault, "audiência específica". E este fato, no seu caso particular, é sobremaneira interessante, já que se coloca defronte de dois panoramas: o interno e o externo.

No plano interno a Dinastia de Avis necessitava unir os súditos, principalmente os setores urbanos, na defesa de sua legitimidade posto haver uma parte bastante razoável da nobreza que ainda questionava a monarquia avisina e afrontava a mesma com a acusação de usurpadora. Um dos mais ameaçadores e enfraquecedores argumentos desferidos a um rei é acusar o mesmo como possuidor de um poder do qual não tem direito.

Não podemos esquecer de modo algum que o caráter teológico do poder régio ainda estava fortemente arraigado na mentalidade política da baixa idade média. O poder régio ainda tinha a sua fonte suprema na delegação divina. Usurpar o poder real era roubar de Deus algo que lhe pertencia. Logo se o rei legítimo trazia ao reino os benefícios e favores da chancela divina, materializados por exemplo por boas colheitas e boa ordem social e militar, um rei usurpador traria no mínimo má sorte e o afastamento de Deus dos súditos e do reino.

A parte da nobreza portuguesa ainda ligada a Castela esperava a oportunidade de retirar do poder aquela dinastia que para eles fora fruto de um golpe.

Fernão Lopes escreverá então a sua crônica demonstrando que a tomada do poder pelo Mestre de Avis, não somente fora obra da união de todos aqueles realmente fiéis ao reino de Portugal, como também uma façanha com participação direta da intercessão divina.

D João I será associado, como era costume nas práticas ideológicas de fundamentação do poder régio, a uma figura de cunho teológico, no seu caso, o Messias do texto bíblico. O Mestre trazia novos tempos ao reino, tal qual o Messias trouxera nos Esvangelhos, outorgando, por favorecimento divino, a salvação aos escolhidos. Portugal estava na vanguarda de um processo teleológico, cujo fim era a vitória da vida sobre a morte.

Existem diversas associações bíblicas da figura régia na história das monarquias cristãs ocidentais, mas o caso de D. João I pode ser considerado particularmente poderoso, pela própria força do personagem a que o mesmo será associado.

No plano externo faz-se mister lembrar que a Europa estava envolvida em uma guerra entre as suas duas mais poderosas potências: A Guerra dos Cem anos, onde França e Inglaterra batalhavam por territórios.

Uma monarquia que buscasse ampliar suas redes e laços de poder na cristandade ocidental, teria que encontrar o melhor modo frente aos seus interesses, de posicionar-se diante do conflito.

Para a Dinastia de Avis o desafio era duplo. Encontrar a melhor posição estratégica e legitimar-se diante do conjunto de Monarquias e Reinos. O modo encontrado foi o tradicional. A união matrimonial da casa de Avis com a casa inglesa de Lancaster, trazendo sangue de balizada linhagem para a corte portuguesa. Fernão Lopes, exaltando as qualidade de seu rei e sua linhagem, estará atuando como propagador do prestígio oferecido a todos que se dispusessem unir-se ao trono português.

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A monarquia avisina se apresentava como a real representante de um sentimento nacional. De um desejo. Uma nação não é um conjunto de instituições apenas. Traz consigo um conjunto de anseios e simbolismos fundamentais na tarefa de expressar um imaginário suficiente e capaz de gerar similitudes.

A memória se mostra com um desses instrumentos. Na realidade um dos mais poderosos. Fernão Lopes e sua literatura pode, sem titubeios, ser posto no rol dos contribuintes diretos na construção de um Estado e uma identidade portuguesa.